Ela gosta de recomeços
Do barulho de portas abrindo
Da primeira letra maiúscula
Do 00 que precede qualquer minuto
Ela dança com o oceano sem pensar se afogar
Ela sai com a madrugada
Não teme a escuridão — nem a luz.
Ela sempre olha fixamente para o sol
E nunca perde a visão
Ela não tem medo de explodir
E caminhar sobre as próprias chamas
E é capaz de passar delineador
No olho do furacão
Ela não foge do próprio caos
Ela conhece um universo diferente
A cada passo que dá
E não sei como
Mas ela ainda arruma tempo pra existir
Ela entende cada enigma
E abraça as crises existenciais
Com intimidade
Ela mesma é uma teoria da conspiração
Uma falha na própria Matrix
Ela preenche as entrelinhas
Sem passar por cima da lógica
Ela é a parte que falta
Depois das reticências…
Ela entende de antíteses e metáforas
E as veste por baixo das roupas
Como peças íntimas
Que poucos tiveram a audácia de tirar
Ela é sempre a primeira a dizer “eu te amo”
E a última a desligar o telefone
Porque não se incomoda com o silêncio
Porque sabe que os melhores encontros acontecem entre despedidas
Ela nunca manda mensagens
Mas é sempre respondida
Ela preenche cada espaço
Sem ser invasiva
O que ela não sabe
Ela ensina
O que ela não entende
Admira
O que ela não gosta
Domina
Em dois minutos te irrita
E nos próximos dois te fascina
De todas as pessoas que conheci
Ela é a mais viva.