A menina que se mostrava no escuro

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A menina que se mostrava no escuro

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Não fazia muito tempo que Maria Flor tinha conseguido um novo emprego e já fez amizade com alguns também recém-chegados na firma. Seu jeito poderia soar meio reservado, mas existia uma simpatia por trás que cativava os outros… ela era assim mesmo: parecia uma coisa, mas era outra. Dentre as novas relações criadas, estava Letícia, outra novata que chegara há mais ou menos um mês antes e também ainda estava se habituando ao novo ambiente de trabalho. Elas pertenciam ao mesmo setor, tinham a mesma faixa etária e (quase) os mesmos gostos. Ficou fácil de perceber que se dariam muito bem. 

Dentre as atividades preferidas delas, estava a saída do trabalho direto para o boteco. Lá, elas ficavam conversando por horas a fio, de reflexões sobre a vida até falar mal dos colegas de trabalho. Já pelas tantas da madrugada, Flor convidava Letícia para dormir em sua casa, temendo que a amiga percorresse sozinha por 20 quilômetros até sua residência com um desconhecido no volante. Letícia, por sua vez, aceitava o convite já que era solteira, não tinha filhos, pets ou qualquer outra coisa ou pessoa que necessitasse da sua presença com tanta brevidade em casa.

Para não acordar os pais de Maria, elas tentavam entrar na casa dela no maior silêncio possível – visto a embriaguez – e corriam para o quarto da anfitriã. Flor deitava em sua cama, disponibilizava um colchão para que Letícia passasse a noite e… breu total. Ao fechar as cortinas, não se via mais nada, só se sentia. A visita percebia um calor humano e uma presença ao seu lado. Pelo visto, Maria Flor achava o colchãozinho no chão mais confortável e interessante do que a sua cama. “Então tá”, pensou Letícia e retribuiu calorosamente a companhia que lhe foi feita. 

No outro dia, manhã de sol, banho tomado, expediente de trabalho à vista… tudo normal, Letícia a esperava em seu posto. Flor chegava e com ela, uma estranheza a tiracolo que durava o dia todo, todos os dias. Até que um novo convite para sair da rotina surgia e lá iam elas direto da firma para o bar. Enquanto mais cedo estava evitando olhar nos olhos de Letícia, agora Maria Flor estava contando para a amiga sobre algum rapaz bonitinho que conheceu na academia, tornando Letícia a pensar que tá tudo bem entre elas, ufa!

E assim, mais uma vez, Flor oferecia sua casa para que Letícia pudesse descansar. A cena naquele enquadramento sem luz se repetia. Incontáveis vezes. Em um dado momento, Letícia já não entendia mais o que estava acontecendo, pois sua amiga só a via de verdade no escuro. Só havia no escuro. Sem conversa, só um romance às escuras, literalmente. Ela sentia um incômodo danado, pois com o passar do tempo, percebeu que quando Flor chegava para iniciar o expediente junto a ela, o seu coração doía e suas mãos tremiam e a última vez que ela sentiu isso foi com uma ex-namoradinha sem futuro que acabou com a sua autoestima. 

“Queria ser menos pisciana”, Letícia refletiu. Mal sabia ela que Maria Flor era de aquário e aquele peixinho já estava morrendo aos poucos dentro daquele recipiente sem luz e sem sustentação. De mãos dadas com a paixonite e percebendo que a amiga não teria nenhuma outra iniciativa à luz da questão, Letícia decidiu que estava chegando a hora de ter uma conversa com Flor, pois aquela situação já estava insustentável. 

Ali mesmo, num daqueles barzinhos que elas sempre frequentavam, Letícia ficou procurando uma oportunidade de entrar no assunto porque da parte da amiga, a “conversa” era só entre quatro paredes. Em um dado momento, ela levantou-se da mesa e foi acender um cigarro lá fora, a tensão dentro de si não estava permitindo que ela relaxasse e foi aí que Maria Flor também se levantou, passou por ela e foi até seu carro pegar alguma coisa. Na volta para a mesa, Letícia a parou – em súbito ato de coragem que às vezes tinha – e perguntou se estava tudo bem entre elas. Monossilábica, Flor já pressentia o que vinha por aí e respondeu que sim, mas não perguntou o porquê da pergunta. Ignorando qualquer tentativa de encerramento do assunto e sabendo bem que outra oportunidade daquela jamais chegaria, Letícia relatou o seu incômodo com as mudanças repentinas de humor da amiga e questionou se isso tinha a ver com aquele pseudo-romance fadado ao fracasso. Maria Flor pediu perdão pela maneira que a fez se sentir com tudo isso e disse que nada daquilo iria acontecer mais. Assim, sem muitos detalhes, sem dar nome aos atos e sem muita vontade de estar ali. Sempre se contentando com o pouco que lhe davam, Letícia entendeu que Flor errou e reconheceu o erro. Pronto, estava resolvido. A amizade segue firme e forte.

Dias depois, uma nova oportunidade de emprego surgiu para Maria Flor e ela saiu da empresa. Letícia, agora sozinha (se é que já não estava antes), queria matar a saudade da amiga e mandou uma mensagem para Flor, que nunca a respondeu. Nunca mais se falaram…

Dias depois desse vácuo, Letícia chegou à conclusão de que naquela conversa do lado de fora do bar, deveria ter falado dos sentimentos que estava nutrindo, talvez assim desse abertura para a amiga também dizer o que sente. Talvez. O que restou pra ela agora é a certeza de que clareza não é o forte de Maria Flor e que ela só se mostraria de verdade no escuro daquele quarto. 

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