Aquela Música me Disse | Elis, ainda estamos nos equilibrando

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Aquela Música me Disse | Elis, ainda estamos nos equilibrando

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Não sei se consigo escrever este mês, pensei. Minha coluna fala sobre música, sobre algum sentimento individual momentâneo, mas, sinceramente, o cenário político não me permite refletir sobre algo que não seja coletivo.

Portanto, a motivação para a crônica de hoje, o que me permitiu entregar algo à minhas leitoras, veio da faísca que senti em meu coração, de uma pontada de esperança a partir do Ato pela Democracia, do dia 18 de outubro, ocorrido em Copacabana, aqui no Rio de Janeiro. É lindo perceber que muitos artistas que admiro, cujas carreiras acompanho e cujas lutas pela democracia respeito, estavam lá, do nosso lado, do mesmo lado. Digo isso, inclusive, sobre Ebony, rapper carioca, mulher, jovem, negra e periférica, que faz ecoar sua voz pela liberdade feminina e está sempre à frente de pautas raciais. Ebony também foi ao Ato.

O que me doeu naquele momento, contudo, foi escutar uma música: “O Bêbado e a Equilibrista”, interpretada por Elis Regina. Cantar em voz alta e junto de uma multidão que pedia por democracia me fez perceber uma canção deslocada de seu tempo. É assustador sentir que ainda precisamos lutar para não vermos aquela mancha novamente. Foi como colocar um espelho virado para o passado.

Não tenho muito o que dizer, na verdade. Cheguei em casa, naquele mesmo dia, liguei a televisão, assisti ao debate dos presidenciáveis e fiquei com o choro engasgado. Pois é, mais uma vez, gostaria de escrever sobre o amor, mas precisei refletir sobre o que nos atravessa. 

É preciso reforçar o papel de uma Constituição que nos rege e garante os direitos básicos de um cidadão. Queria que estivéssemos, em conjunto, escolhendo um governo que se preocupa com a saúde, com a educação, com a segurança pública e com as pautas que envolvem a maternidade. Por que não estamos olhando para um governo que fala sobre expressões artísticas, sobre todas as formas de afeto? Escândalos de corrupção, liberdade às armas, prisões compulsórias que serão voltadas ao povo preto e, até agora, a proposta de retirar a identificação de munições destinadas às forças de segurança não foi explicada. Existem muitos interesses escusos nessas propostas. 

Eu queria tanto falar sobre outro assunto neste momento, mas não consigo.

A canção da Elis ficou presa na garganta.

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