BRECHAS

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Minha proposta é sutil. Sutil como o ar que toca sua pele neste exato instante. É um exercício em movimento, não existe fim, nem começo. É durante. É como encontrar uma brecha e abri-la. E continuar abrindo, e abrindo, e abrindo infinitamente. Nunca escrevi pra um blog mas me encanta a idéia de ser lida e ouvida na mente dos que me lêem com outra voz que não a minha. Já adianto: Acredito na honestidade para guiar a fala de como tenho vivido e olhado para a vida.

Sou uma artista da voz, e me apaixonei pela pesquisa sobre os entrelaçamentos entre voz, corpo e spiritualidade. No fim, me parece tudo um assunto só, uma grande encruzilhada! Integração é palavra-chave para nós. Talvez antes, devo dizer que sou uma pessoa nascida e crescida no interior, há uma alma caipira, roceira dentro de mim. Roceira mas rebelde demais e com idéias diferentes demais para seguir por uma vida inteira na cidade pequena.

Ainda assim, gosto de como o espírito interiorano nunca me abandona. Moro na cidade de São Paulo há quase dois anos, e por muito tempo temi vir morar aqui com receio de me perder dessa voz interna que gosta de sentir a vida desse jeito: com calma, lentidão e prazer, com espaço entre as coisas. O mundo anda muito louco, e não daquela loucura boa de lucidez do fogo, olhos brilhando…Muito pelo contrário! Os olhos andam cada vez mais opacos, cansados, como se uma névoa tivesse pousado sobre eles. E acredito que pousou. Em São Paulo então, isso se intensifica não somente pelas luzes, sons e acontecimentos incessantes mas principalmente pelo esquecimento de nossa relação inerente e inquebrantável do que costumamos separar de nós e chamar de natureza. Uma ilusão.

Eu, com minha resistência interiorana que não me larga por nada (ainda bem!), acredito que a gente precisa se sacudir de alguma maneira, não pela correria do dia-a-dia, mas pela teimosia que se configura como um antagonismo nesse contexto. Ativar a bruxaria cotidiana, através de pequenas pílulas de conexão com a nossa rebeldia, recusando a narrativa imposta, sem sabor, pronta como um pedido pelo ifood. Um exemplo disso tem sido recusar o cafezinho matinal (leia-se provocador de ansiedade e pensamentos aceleradíssimos) e trocá-lo por um bom chá. Percebi que a freqüência do café me perturba, me sintoniza com a tal loucura dos olhos opacos e da mente alucinada. Todos os dias me levantava, fazia minha yoguinha, meu alongamento matinal e ficava plena,
presente e me sentindo super aterrada. Na primeira xícara de café lá se ia tudo embora. FRITAÇÃO.

E a voz, o que tem a ver com isso? Ela está aqui o tempo todo. Você também pode chamá-la de vento. Você não está ouvindo? Vento soprando é espírito cantando. E mesmo que você me leia em silêncio, existe uma voz aí,
soprando na sua mente essas palavras, tocando sua imaginação com algumas visões. Existe uma voz entrelaçando tudo o que você pensa, sente e comunica. Ela é essa entidade que faz dialogar o que quer existir e o que já existe, que cria no som e até mesmo no silêncio, no campo das freqüências inaudíveis e do pensamento. Voz é vento, vento é espírito. Espírito canta.


Me pego lembrando das aulas de física que gostava no colégio e da
sensação curiosa de ter relembrado há alguns anos uma obviedade tão
esquecida que segue o clássico de que o óbvio precisa ser dito: tudo no universo
é feito de freqüência. E me parece ainda mais óbvio dizer que a voz é freqüência.
E que freqüência é a repetição de algo num determinado intervalo de tempo.
Numa brecha!

A rotina guarda um segredo. Nela residem nossas repetições, nossos hábitos, nossas práticas. E quero afirmar que não existe diferença do lugar a partir do qual você vive e o lugar de onde você canta, fala, se expressa. Se vivo em um ambiente interno de desconexão comigo, com a natureza, com a alegria e a vida, essa desconexão pode muito bem estar presente enquanto canto. Minha busca nos últimos sete anos é por cultivar essa conexão para que ela seja de fácil acesso, para que caminhe comigo como um perfume. As brechas na rotina se revelam como a chave para viver do lugar que se canta, e cantar do lugar em que se vive, desfazendo a ilusão de separação dentro para dissolver fora. Integrando/Entrelaçando/Encruzilhando mais uma vez.

Escolher o chá em vez do cafezinho me aproxima da minha rebeldia e fortalece a conexão com a natureza em mim. É dialogo com o corpo. Voz é corpo, e corpo é espiritualidade encarnada. Tocar o próprio corpo e o corpo do outro com o som da voz é se entrelaçar com os mistérios de materializar o invisível.
Minha proposta é gotejar. Naquela fenda que se abriu desde que você começou a me ler, ir vertendo calmamente gotas de conexão. Conexão ancestral, conexão com as plantas, conexão com as palavras, conexão com o corpo, conexão com o sim, conexão com o não. Estabelecer convites de escuta, de escuta para minha dança, para a sua dança, para dançar na sua voz. E ir se descomprimindo na vivência das coisas é ir encontrando as brechas.

Dadona é artista LGBT, cantora, compositora e bacharela em Música Popular (UNICAMP). Professora de canto desde 2011 e pesquisadora em corpo-voz-expressão. Integra o grupo Kundengo. Lançou “Madrugada Chegou”(2019). Em 2025, prepara seu segundo álbum. Escreve mensalmente sua coluna Quiropraxia Oracular para o Hora do Sabbat.

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Respostas de 5

  1. Adorei a forma como você trouxe as brechas como oportunidades de reconexão.
    Falo muito sobre reconexão com a nossa essência, para ter uma vida repleta de autenticidade e encontrei muitos pontos em comuns no seu texto!
    Um viva as brechas que nos convidam a essa reconexão!
    Estarei aqui te acompanhando!

    1. Oi Iris! É tão bom sentir essa ressonância nas nossas buscas né? Saber que vc também cria suas brechas de reconexão fortalece isso em mim! Grata pelo carinho nesse seu comentário! Seguimos juntas! ❤️

  2. Seu texto me fez pensar no caminho inverso que escolhi trilhar. Depois de viver o ritmo acelerado de duas capitais – a de Pernambuco e a do Chile – decidi migrar para o interior, ou melhor, para a zona rural. Aqui, o tempo se estica, tudo parece respirar com mais calma, e essa mudança tem me feito bem depois de 37 anos imersa na correria das metrópoles.

    Sobre o chá, confesso que por aqui ele reina absoluto, sendo quase um ritual diário. Mas, como boa brasileira, ainda sou fiel ao café quentinho!

    Parabéns pela coluna e pela forma sutil e envolvente com que nos convida a refletir sobre nossas conexões com o tempo, o corpo e a voz.

  3. Elayne, acredito que é possível encontramos nosso próprio ritmo nesses dois contextos, cada um com suas vantagens e desafios né?
    Pra mim, o desafio do momento tem sido sustentar essa essência independente de onde eu esteja, e as vezes conseguindo apreciar a sensação do contraste (chega a ser divertido!)
    Confesso que sinto falta do sabor do café, tenho pensado em aderir a um descafeinado de vez em quando, mas ainda é só uma idéia.

    Fico feliz de contribuir nas reflexões e grata por receber o teu comentário tão generoso!

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