Apesar dos avanços e das vitórias importantes, ainda é difícil para as mulheres conquistarem o seu espaço nos maiores festivais de música do Brasil. A pesquisa Mulheres nos Palcos: diversidade de gênero e raça nos festivais brasileiros de 2016 a 2023, realizada pela pesquisadora Thabata Arruda, revela que, embora tenha havido crescimento na presença feminina, o número ainda é bem abaixo do ideal. Em 2022, a participação das mulheres caiu para 32,2%, mas subiu para 34,6% em 2023 — uma melhora, mas longe do que é necessário.
A desigualdade de gênero na música brasileira não é algo novo, é um problema estrutural que persiste e se mantém, muitas vezes de maneira silenciosa. As mulheres, tanto nos palcos quanto nos bastidores, continuam a ser excluídas, como se sua presença fosse um detalhe, não uma parte essencial do movimento musical. A pesquisa mostra que grandes festivais como Lollapalooza Brasil e Rock in Rio ainda ignoram a diversidade feminina em suas edições mais recentes. Mesmo com o Brasil sendo um país com maioria feminina, nos palcos esses números não se refletem.
Para o Lollapalooza 2025, por exemplo, as mulheres continuam representando menos de um terço da programação. Embora o evento tenha dado espaço para mais atrações femininas no passado, ainda estamos longe de ver um equilíbrio real, que reflita a riqueza e a diversidade do talento artístico feminino no país.

Foto: Isabella Zeminian
E não é só isso: os festivais mais antigos, como os de rock, continuam resistindo em dar palco para as mulheres. Não se trata apenas de uma preferência artística, mas sim de um reflexo de um sistema que ainda marginaliza o trabalho das mulheres, não reconhecendo o valor das suas produções e das suas vozes. O maior problema é que essa resistência vem de uma cultura de invisibilidade — uma cultura que faz as mulheres ocuparem um segundo plano, mesmo com todo o talento que têm.
No estudo de Arruda, o recorte para as mulheres negras é ainda mais gritante. De 2016 a 2023, as artistas negras não chegaram a 20% das atrações femininas nos festivais. O pico foi em 2021, com 26,1%, mas ainda assim é muito aquém da diversidade e riqueza cultural que o Brasil carrega. A falta de representatividade negra nos palcos só aumenta as desigualdades que já existem dentro da indústria musical.
A mudança precisa ser agora. Não dá mais para falar sobre desigualdade de forma superficial ou apenas para gerar “lacração”. A luta precisa ser mais profunda, mais estruturada e com ações concretas. A inclusão de mais mulheres e mais diversidade racial nos palcos não é só uma questão de visibilidade, mas de justiça. Precisamos de políticas públicas e regulamentações que garantam igualdade de condições para todos, sem importar o gênero ou a cor da pele.
A indústria musical precisa ir além de se posicionar contra preconceitos. Ela precisa adotar práticas que quebrem as barreiras que ainda impedem as mulheres de ocuparem seu espaço. As mulheres têm força, têm talento, e estão prontas para brilhar. O que falta é que esse brilho seja reconhecido de maneira justa, sem os obstáculos que ainda são impostos pela estrutura masculina que domina o setor.
Não é mais só sobre colocar mulheres nos line-ups. É sobre colocá-las como protagonistas da mudança. Quando conseguimos acabar com as desigualdades, não estamos apenas promovendo mais diversidade na música, mas criando um ambiente mais justo para todos. A verdadeira revolução na música brasileira vai acontecer quando as mulheres estiverem no palco em igualdade de condições, sem barreiras, para mostrar ao mundo o poder da sua arte.