Não há nada mais urgente

Você está lendo

Não há nada mais urgente

Compartilhar artigo

Escrito por

Retiro o que eu disse. Não, eu não tenho saudades de quem eu era há 7 anos. Nem do tal entusiasmo que eu tanto defendi no mês passado. Não, eu mudei de idéia. Em uma conversa com minha amiga Beatriz Mentone, professora cíclica e condutora de processos emancipatórios através da escrita e do corpo, ela me disse: “Foi bom que ao te ler relembrei um processo similar que vivi mais ou menos na mesma época, mas percebi que não sinto falta de como eu me sentia eufórica”. E de repente: Sim! Como um segundo raio em minha cabeça! Aquilo não era apenas entusiasmo, era euforia. O coração acelerado, a ânsia por descobrir mais, e cutucar mais, e compreender mais. E é claro, foi maravilhoso ter vivido aquilo naquele momento e daquela maneira mas, como é o destino de todo fogo, aos poucos mingua e se esvai, assim como a paixão. E quando a paixão se vai, o que fica é o amor.

Ah, o amor… Esse assunto tem me rondado bem-de-perto há pelo menos 6 meses. Não da maneira romantizada à qual somos comumente remetidos, mas esse amor enquanto aquilo que se faz presente. Amor como o que nos conecta a tudo que é vivo, da mesma maneira em que as moléculas de vapor d’água, presentes no ar, interligam tudo que respira. Amor enquanto o que faz mover, circular, conectar. Amor como o verdadeiro condutor da energia vital. Então me pergunto e te faço as mesmas perguntas: o que pode esse tipo de amor realizar em nossas vidas? Se é ele que conduz a energia vital, se é ele que irriga todas as nossas células. Se é o amor que expande, reverbera, difunde, carrega, estende nossa vitalidade a partir do nosso centro até as extremidades, se é ele que impulsiona e pulsa vitalidade em nossas veias, o que pode se realizar  acompanhada dele?

Reconheço que não é tão simples assim. “Ame-se.” “Seja você mesma.” Essas frases no imperativo são apenas comandos sem enraizamento. Há todo um percurso a ser traçado, um percurso que necessita de estratégias. Estratégias solares de sobrevivência, como nos lembra a professora Aza Njeri nesse vídeo. Segundo ela, viver solarmente é um ato de revolução, a partir da crença inegociável na força vital. E se então o amor é o verdadeiro condutor dessa energia vital, o que nos resta é criar nossas estratégias de amor para com a nossa vida, para com nós mesmas! Nos resta garantir para o nosso corpo esse direito de existir dançando, brincando, jogando. Nos resta trazer para a nossa voz-corpo o direito à palavra, à fala, ao canto, à canção, à música, sustentando a crença de que tudo aquilo que realizamos a favor da nossa alegria, da nossa vitalidade é a maior revolução que podemos exercer no mundo. Afinal, um corpo que festeja, que celebra o fato e a alegria de estar vivo é um corpo sensível, perceptivo e atento. E gente atenta não se deixa manipular. 

É sim, perigoso. É perigoso pra o tal sistema mas também para nós mesmas, para o eu que construímos até aqui, porque isso pode significar contrariar todas as regras, tudo o que nos ensinaram sobre quem somos, sobre o que é viver e sobre como viver. Pode até mesmo tocar a palavra “impossível” só de imaginar qualquer ousadia para além daqui. No entanto, o impossível não é uma pedra estática e absoluta. Ele se move e encontra brechas para acontecer, encontra caminhos para se fazer real, para acreditarmos na existência da  impossibilidade. Qual seria então o movimento que torna o que antes se considerava impossível em uma ação, um pensamento, um sonho, um mundo possível? Qual é essa chave que faz esses dois mundos se tocarem? 

Imagino que as respostas estão nas encruzilhadas, é nelas que todos os caminhos se tocam, possíveis e impossíveis. É sob a energia de Exu e do corpo encarnado, do corpo enquanto o lugar do encontro entre céu e terra, entre o sagrado e o profano, o divino e o terreno, o comum e o extraordinário. Quando dançamos, brincamos, cantamos, estamos evocando o corpo encarnado e nos habitamos por inteiro. Isso é o que nos traz sentido, alegria de estar vivo, e não há nada mais urgente que tomar as carnes e dançá-las, cantá-las e preenchê-las de amor por si! Esse é o caminho por onde vejo revolução: tomando o corpo e o tempo do corpo, contrariando o tempo da mente, e deixando o Corpo-Exu tomar conta dos ritmos, sabendo que o que dá ritmo não é apenas o movimento, é a pausa. Sem pausa não há ritmo, há apenas barulho sem cessar. Incessantemente desgovernado.

Sem ritmo.

Sem pulso. 

Sem vida. 

Vida é pulsação, então pausamos para ritmar. Pausamos para dançar, cantar, brincar e para finalmente perceber o ritmo da vida que nos move.

Sendo assim, que saudades posso ter eu daquela euforia? A vida não está em outro lugar senão aqui. E para enraizarmos no presente precisamos amar o presente, e é exatamente isso que estou propondo: realizarmos as atividades cotidianas enquanto nos amamos. Pode ser comer se amando, tomar banho se amando, caminhar pela rua se amando, cantar se amando e amando sua voz, dançar amando seu movimento e seu corpo. E se por acaso você não estiver se amando naquela determinada atividade, talvez seja válido reconsiderar se essa é uma estratégia que faz sentido para você se manter viva, radicalmente viva. Porque os tempos são urgentes, e sobreviver o caos do mundo pede para que a gente se fortaleça, juntes. “A minha força vital se estabelece no momento em que eu reconheço e promovo a sua força vital.” – nos encoraja a professora Aza Njeri no mesmo vídeo.

  Há tanta sabedoria inerente à observação da natureza, essa à qual pertencemos e somos, e ainda assim não nos damos conta de que seus ciclos, e fluxos, e suas coexistências na diversidade já nos dão os códigos do viver bem. Porque tudo o que buscamos, toda essa nossa pressa é em nome do que imaginamos que seja viver bem, quando na verdade viver bem pode estar no que já vivemos nesse aqui-agora.

Escrito por

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. 
Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Outras histórias que pode te interessar

Se você, como eu, foi criança na década de 80, vai se lembrar...

Nambiporã significa “brinco grande”. Ainda que não trabalhe com brincos tradicionais de pena,...

As mulheres que acreditam na vida, que cultivam a esperança e mantêm a...

/*; } .etn-event-item .etn-event-category span, .etn-btn, .attr-btn-primary, .etn-attendee-form .etn-btn, .etn-ticket-widget .etn-btn, .schedule-list-1 .schedule-header, .speaker-style4 .etn-speaker-content .etn-title a, .etn-speaker-details3 .speaker-title-info, .etn-event-slider .swiper-pagination-bullet, .etn-speaker-slider .swiper-pagination-bullet, .etn-event-slider .swiper-button-next, .etn-event-slider .swiper-button-prev, .etn-speaker-slider .swiper-button-next, .etn-speaker-slider .swiper-button-prev, .etn-single-speaker-item .etn-speaker-thumb .etn-speakers-social a, .etn-event-header .etn-event-countdown-wrap .etn-count-item, .schedule-tab-1 .etn-nav li a.etn-active, .schedule-list-wrapper .schedule-listing.multi-schedule-list .schedule-slot-time, .etn-speaker-item.style-3 .etn-speaker-content .etn-speakers-social a, .event-tab-wrapper ul li a.etn-tab-a.etn-active, .etn-btn, button.etn-btn.etn-btn-primary, .etn-schedule-style-3 ul li:before, .etn-zoom-btn, .cat-radio-btn-list [type=radio]:checked+label:after, .cat-radio-btn-list [type=radio]:not(:checked)+label:after, .etn-default-calendar-style .fc-button:hover, .etn-default-calendar-style .fc-state-highlight, .etn-calender-list a:hover, .events_calendar_standard .cat-dropdown-list select, .etn-event-banner-wrap, .events_calendar_list .calendar-event-details .calendar-event-content .calendar-event-category-wrap .etn-event-category, .etn-variable-ticket-widget .etn-add-to-cart-block, .etn-recurring-event-wrapper #seeMore, .more-event-tag, .etn-settings-dashboard .button-primary{ background-color: