Fernanda Bande, ao ser eliminada do reality Big Brother Brasil 24, soltou essa célebre frase ao se referir ao seu premeditado fracasso no show business pós-participação do programa, em comparação às suas rivais, dez anos mais novas e sem grandes responsabilidades.
Acho que não há pensamento mais genuíno do que esse quando nós, mulheres que mastigam o amargo da vida no seco, enxergamos uma pessoa que tem todas as oportunidades na palma da mão ali, na nossa frente, fazendo algum discurso sobre o lado bom desse gosto amargo. Gosto esse que certamente ela nem nunca sentiu.
É muito incrível o conceito da branca (geralmente só elas têm essa coragem) salvadora da pátria, dona da eloquência que energiza vidas quando prolifera palavras de amor e compaixão gravando um story de dentro do seu carro importado.
– Mas Serena, você também é branca!
– Contrariando as estatísticas, me faltam oportunidades, tornando-me uma exceção à regra. Além disso, não tenho coragem de fazer esse discurso e orgulhosamente, com muito bom senso de não fazê-lo.
Continuando…
E aí, vem ela dizer que vai ficar tudo bem com o pessoal do Rio Grande do Sul enquanto está de férias em Dubai, certamente muito preocupada com tudo isso.
E aí, passou o mês de junho, e sabe como é, né? Aquelas festas juninas que ela ama. Soube que ela voltou correndo para o Brasil, pra esse povo batalhador que ela tanto ama também. Deu pra sentir isso enquanto ela tava lá no show do Safadão registrando a felicidade dos garis que limpam a festa junina. Enquanto eles dançam em um time-lapse de prazer, ela filmava tudo do camarote. Tava distante, mas dizem que o zoom do Iphone 16 Pro Max é bom.
Ao contrário de nós, reles pobres mortais que naturalizamos um possível e quase certeiro fracasso — pois é bem melhor do que se frustrar com expectativas — ela não só cria as expectativas como trabalha a positividade tóxica, aquela máxima de que nada vai dar errado, tudo vai dar certo. Realmente, nunca nada deu errado pra ela. Como poderia dar errado se ela tem um apartamento com vista pro mar, cursou todos os estudos em lugares particulares e teve toda a ausência paterna preenchida por uma tia super rica e sem filhos? Tadinha, é compreensível que ela seja assim.
Podemos até ter começado a andar no mesmo dia, mas você estará sempre na minha frente. Sua vitória é vitalícia, bonitinha. Você está contratada, sempre esteve.

Míriam Pimentel é jornalista pela Universidade Federal de Alagoas, amante da cultura pop, apaixonada por música e pisciana com ascendente em peixes que ama escrever devaneios lúcidos e crônicas embriagadas, não necessariamente nessa ordem.