Eu era só uma criança quando disse que queria falar sobre Clarice Lispector. E eu poderia falar dela até esquecer minha verdadeira idade. Em conversas com amigos, em trabalhos acadêmicos e até mesmo com as paredes antes de dormir eu falo dela. Sempre que falo dela, falo com ela. Tenho uma explicação pra isso, que nada tem a ver com fanatismo, é uma explicação que vem das palavras da própria Clarice. Para ela, escrever era viver, portanto existe uma presença que é verdadeira em seus textos, como se seu espírito se tornasse matéria através das letras. Entre linhas, lá está Clarice.
Existe uma carga de espiritualidade que ela expõe em seus textos, que eu só notei em meus estudos mais avançados, justamente porque antes eu entendia tão pouco a espiritualidade quanto a escritora. A espiritualidade para Clarice Lispector se expande para além dos conceitos de deus. Escrever, para ela, é um ato altamente espiritual, pois é uma ação que vai além do seu corpo, é um ato sagrado, sem o qual ela morre. E, ao morrer, ela se encontra tanto com a grandiosidade do universo, quanto com seu imenso espaço vazio. E cedo ou tarde ela renasce, contando (quase) todas as suas experiências mortais.
Um dia ela disse que gostaria que houvesse reencarnação, para que pudesse voltar em outro corpo e ler seus textos emocionada sem saber que um dia os houvera escrito. Eu gostaria de ser esse corpo.
Em algum momento, eu a senti renascer em mim. Foi por ela que escolhi fazer Letras; foi ela quem me deu os primeiros impulsos pra me tornar escritora; é a mão dela que eu seguro nos momentos de morte criativa. Quando comecei a cultuar as Musas, imaginei Clarice como uma delas, dançando ao redor de Apolo com uma mini máquina de escrever. Quando chamo pelas Musas em meus rituais, Clarice vem sussurrando ao lado, como uma presença clandestina, mas convidada. E por esse motivo eu digo que Clarice não precisou reencarnar para renascer.

Lihra é poeta, bruxa, taróloga e mestranda em Estudos Linguísticos. Autora de Textos que eu Deveria ter Rasgado, Meta: Linguagem e Me Chame de Lola.