Vanessa Passos: a autora que escreve à mão e acredita que a literatura salva 

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Vanessa Passos: a autora que escreve à mão e acredita que a literatura salva 

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O romance de estreia da escritora Vanessa Passos, A Filha Primitiva, foi vencedor dos prêmios Kindle de Literatura (2021), Jacarandá (2022) e Mozart Pereira Soares de Literatura (2023) e será adaptado para o cinema. No Brasil, o livro foi publicado pela José Olympio, sendo sucesso de público e de crítica. É uma história sobre amor e raiva, futuro e ancestralidade, violência e perdão.

Ambientada em Fortaleza, o romance gira em torno de três mulheres: a avó, mulher negra, analfabeta, religiosa, que esconde da filha a identidade do pai; a filha, branca, professora, que encontra o prazer da vida na leitura e na escrita e rejeita a maternidade que lhe foi imposta; a neta, adorada pela avó, mas rejeitada pela mãe, que vê na maternidade um empecilho para a vida. É uma ficção imersa na crueza da linguagem e calcada no real que transforma a história em grande literatura. 

Ao longo do romance, a autora desconstrói vários mitos que giram em torno do universo feminino: a maternidade, a sexualidade e a religião. Na história, só os homens têm nome, mexendo nas feridas provocadas pelo patriarcado e seus desmandos, as mulheres são nomeadas por avó, mãe e filha, em uma costura entre orfandade e escrita. 

É linda e crua a passagem que Vanessa Passos traz no livro quando a professora pede à filha que desenhe sua árvore genealógica e ela entrega uma folha em branco. Não tinha o que colocar na cartolina, pois desconhecia sua filiação, um segredo até então, guardado a sete chaves pela mãe e que causa atritos constantes entre as duas, causando uma fenda nessa relação.  

Esta edição conta com prefácio de Giovana Madalosso, finalista do Prêmio Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura, e posfácio da premiada cineasta brasileira Susanna Lira que dirigiu, entre outros filmes, Fernanda Young, Foge-me ao controle e Nada sobre meu pai.

HS – De onde vem a força da sua narrativa?

Vanessa PassosPara mim, a escrita nasce de uma necessidade. Encontrei nas palavras a liberdade que eu queria na vida. Eu nem sempre fui essa mulher com voz, eu era extremamente tímida e tinha até uma certa fobia social. Meu esconderijo seguro era a biblioteca da escola e entre os livros eu comecei a sentir gosto pela leitura. Eu não tinha muitos livros em casa. Para você ter uma ideia, o primeiro livro que li foi a Bíblia. Eu ficava muito surpresa como um autor que não me conhecia e não sabia quem eu era tinha o poder de acessar tão profundamente o meu íntimo. E eu achava aquilo mágico. A primeira autora mulher que li foi Clarice Lispector e fiquei fascinada pela escrita. Também foi um grande ponto de virada, pois me dei conta de que mulheres também escreviam. Alí, eu comecei a escrever, mas sem ainda querer ser uma autora profissional. Já na universidade, percebi que existiam concursos literários, me inscrevi e tive um contato selecionado e publicado. Também me dei conta de que existiam autores vivos, pois até então, todos os autores para mim estavam mortos. 

HS – A Filha Primitiva traz uma narrativa densa, profundamente íntima e escrita com o corpo e com a memória. Uma história de três gerações de mulheres marcadas por silêncios, ausências e sobrevivência. No livro, você desconstrói, inclusive, a maternidade. Como surgiu essa história?

Vanessa PassosTodo livro que escrevo parte de uma obsessão. Este romance, em especial, nasce da minha obsessão com o silêncio. Eu penso que o cotidiano é um solo fértil para a ficção. Então, eu estou sempre como autora atenta aos diálogos, às vozes, aos gestos, aos comportamentos. Eu percebia que era muito comum as mães esconderem segredos para proteger seus filhos. Esse lugar da maternidade como proteção e fortemente marcada pelo silêncio. E eu só conseguia enxergar o silêncio como fomento à violência. O fio do novelo que eu vou puxando enquanto escrevo parte das personagens – pois, a princípio eram apenas a mãe e a filha – eu vou desconstruindo essa relação romantizada da maternidade porque em algum momento a filha para existir tem que romper com a mãe ainda que exista amor. A terceira personagem – que é a neta – veio depois, pois percebi que existe algo que você desconhece quando se é filha, mas ainda não é mãe. O nome “primitiva” – que dá título ao livro – está muito ligado à linguagem e ao mesmo tempo à ancestralidade que é a grande busca da personagem que quer entender as suas raízes. Uma personagem que tem muita raiva e tudo que faz é, de certa forma, motivada por essa raiva. E escrevendo o livro eu me dei conta de que é uma narrativa sobre violência, inclusive o próprio ato de parir, de dar à luz a uma criança também é muito violento, dolorido. É como digo no livro: “enfermeiras não gostam de grávidas escandalosas”. 

HS – Você não só desconstrói a maternidade no seu livro, mas também a religião.

Vanessa PassosA relação entre mãe e filha também é marcada pela fé da mãe e o sexismo da filha. Ambas viviam no mesmo lugar, mas não conseguiam dialogar. A mãe analfabeta, mas que se vale muito da oralidade, a partir da escuta das palavras da Bíblia que ela decorou e sabe de cor, que memorizou pela escuta. Isso influencia na construção da linguagem de cada personagem, das palavras que serão ditas por cada uma. Por outro lado, há a filha que não consegue conceber essa ideia do Deus cristão personificada em uma figura masculina porque teve seu corpo violentado por diferentes marcas desse masculino. É difícil e desafiador encarar a verdade. Muitas vezes, a escolha é pela alienação, até para sobreviver. 

HS – Por que a intenção de não nomear as personagens?

Vanessa PassosEu sou uma autora que planeja. Passei a vida inteira me dedicando à literatura e a escrita criativa. Mas há algo que a gente não controla. No processo de escrita de A Filha Primitiva eu pensava em nomear as personagens ao final, mas durante a escrita percebi que fazia muito sentido elas não terem nome por vários motivos. O primeiro é porque estamos falando de silenciamento e apagamento. Quando nomeamos os homens, essa violência só aumenta. Embora não tenhamos a presença desses homens, temos os rastros e as cicatrizes deixados por eles nessas mulheres. Outra questão é a universalidade da história, que pode ser a história de qualquer mulher. A própria relação da mãe e da filha. Ela não chama a filha de filha, mas sim de menina. E diz: “dar nome é dar vida”. São várias camadas existentes no livro que me levaram a essa decisão.

HS – O que é a escrita para você?

Vanessa PassosA escrita é muito visceral, é algo que vem de dentro, mas que também traz muita ambiguidade. Eu sou apaixonada pela escrita, mas não posso dizer que ela não me angustia. Doí parir palavras, mas dói ainda mais não colocá-las para fora. A arte e a escrita salvam. Todas nós somos feitas de palavras e de histórias. E não é só a palavra escrita, a oralidade tem uma beleza ímpar. As palavras ditas entranham na gente de uma forma única. E isso constrói memórias e histórias. 

Saiba mais:

A Filha Primitiva

Editora: José Olympio

198 páginas

R$ 48,70

Ouça a entrevista completa no Spotify do Projeto Entre Elas – episódio 138

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